Fazendo arte com as mãos

Livro: "A Mão Humana"

Autora: Ute Craemer e Colaboradores - Coleção Criança Querida

Colaboradora: Monica Winnubst

São infinitos os temas que podemos escolher para falarmos sobre as mãos. Podemos escrever sobre as mãos e a tecnologia; o toque das mãos na área da saúde, nas profissões de enfermagem, medicina, fisioterapia; nas profissões da educação; nas profissões operacionais como carpinteiro, marceneiro; eletricista, soldador; sobre as mãos nas profissões de serviços ou nas profissões que geram produtos. Como são habilidosas as mãos do artesão; as mãos decisivas para o juiz ou para o maestro; As mãos nas diferentes religiões. Como usamos as mãos nos relacionamentos afetivos ou nos relacionamentos interpessoais. O quanto elas são especiais, calorosas e essenciais no vivenciar a maternidade, lembrando que o bebê e mãe se conhecem através dos toques de suas mãos. As mãos como comunicação e linguagem mundial. O dar as mãos em sinal de selar um acordo ou em sinal de paz, de amizade e de um mundo sem preconceitos com direitos igualitários e humanos.

 

Em todas essas possibilidades, ao observarmos com atenção, as mãos são essenciais para concretizar o objetivo inicial. Elas são indispensáveis e acompanham o profissional ou o indivíduo durante todo o processo de realização do projeto. São com as mãos que o adulto concretiza suas idéias, realizam qualquer atividade e também fazem a arte. São elas que põem em prática novos direcionamentos ou implementam ações imprevistas que se tornam necessárias no meio de um processo artístico. Quando crianças, com as mãos que se descobre o mundo através do brincar.

 Elas são um dos meios pelos quais se estabelece a qualidade dos serviços, ou do atendimento na área da saúde. Por exemplo, com o toque delicado e suave o paciente ameniza o sofrimento da dor que está sentindo. São elas que fazem com que o operário pegue com firmeza o que é necessário que seja fixado ou mesmo consertado. As mãos que dão a benção, e que com afago encoraja o fiel para continuar trilhar o seu caminho. São as mãos que demonstram a sensibilidade auditiva do maestro, dando o aval para que o músico presenteie nossa alma na hora devida com o tom, melodia ou o acorde da composição. As mãos revelam a intenção e podem ser o veículo de expressão do coração, demonstrando afetividade, carinho, delicadeza ou sensibilidade.

 Partindo destes pressupostos: “a mão revela o homem;” ”a mão é a expressão da individualidade;” “as mãos retratam a alma;” “com as mãos temos o poder de construir a humanidade;” “com as mãos criamos o acervo cultural da humanidade;” obtemos a certeza de que as mãos são capazes de transformar a história e são o suporte destas palavras: “O medo do futuro que tememos só pode ser transformado com imagens do futuro que queremos”.

 Sabendo que a arte tem relação com todos estes pressupostos, que com as mãos, fazendo arte, temos a vivência concreta das conseqüências dos nossos atos tanto com o resultado adquirido, como com a consciência e os sentimentos que surgem durante cada etapa do processo criativo e artístico. Podemos dizer que as mãos através da arte são o veículo da ação sustentável. Também considerando que a arte possibilita e ajuda o indivíduo a tornar-se responsável e colabora na formação do caráter, escolhi algumas formas de arte como tema que compartilharemos a seguir.

 

As mãos na aquarela

A pintura na técnica aquarela é extremamente surpreendente. Iniciamos numa tela branca com alguma intenção e vontade de pintar determinada imagem. Mas, a aquarela por si só nos surpreende por sua própria força com a ação da união da água, com o pigmento da cor, a umidade do papel e o deslizar da pincelada. As mãos pegam o pincel com a leveza necessária para expandir os traçados, amenizar ou acrescentar as cores, puxar ou tirar a tinta que por um acaso possa ter surgido em excesso, ou mesmo por uma vontade de aprimorar o que está surgindo no papel. Os dedos pegam no pincel também com a delicada segurança quando há a necessidade de um traçado mais preciso formando a imagem ou a arte. Esta conversa entre a técnica e as cores faz um diálogo que vai surgindo da relação do artista e suas mãos com a arte, que expressa o interior do condutor do pincel. Durante todo este processo artístico e criativo, as mãos são as condutoras das características e estado anímico do artista. Assim, as mãos traduzem e retratam a imagem dos sentimentos para também ser compreendida e apreciada pelos sentimentos do expectador. Já que o mundo das cores não pode ser compreendido pela razão.

A pintura, ou mesmo a aquarela é uma oportunidade riquíssima para que o indivíduo possa entrar e desenvolver este mundo inesgotável dos sentimentos e as mãos podem ser treinadas até que ao pegar no pincel, elas possam demonstrar determinadas qualidades do artista.

A leveza, delicadeza, direcionamento, condução, ritmo, paciência ou paz interior estão presentes a todo o momento e em cada pincelada que a mão é direcionada a fazer enquanto confecciona a obra.

 

As mãos que fazem o pão

Primeiro, as mãos são as responsáveis por traduzir a presteza da medida dos ingredientes e nesta primeira fase já há o encontro com várias sensações ao manipular os diferentes ingredientes. Até chegar o momento da “mãos a obra” ou literalmente “mãos na massa”, e o mergulhar num festival de emoções quando sentimos a massa, ao tocá-la percebemos o frio, o calor, a textura, o molhado, se está grudento ou já soltou das mãos. Todas estas percepções acontecem na atividade de amassar, de amaciar, do sovar o pão. São sensações que o tato, um dos órgãos do sentido, permite vivenciar. Mas há a necessidade de manipular a massa com firmeza, imprimindo uma força nesta ação. Quanto mais dedicação, intenção e empenho, inclusive físico, melhor será o resultado, mais macio sairá seu pão.

Ressalto o quanto esta atividade, este festival de emoções pode ser lúdico, prazeroso e até relaxante. É um evento divertido quando feito com ajuda das crianças. Um momento social ou familiar duradouro, incluindo o acompanhamento e a expectativa de ver o pão crescendo, de aguardá-lo enquanto assa. Até o momento final quando há novamente o toque das mãos ao cortá-lo, ao levá-lo á boca, ao cheirá-lo e finalmente ter muito prazer ao saboreá-lo. Ocasião para permitir a participação dos órgãos do sentido, o olfato e o paladar.

Lembrando que as mãos foram o veículo para que todas estas oportunidades acima aconteçam, por meio delas resgatamos uma antiga atividade manual, a profissão de tempos primórdios, o padeiro. O fazer o pão nos remete a percepção que temos a possibilidade de cozinharmos, de fazermos o nosso alimento, de participarmos do processo. Não necessitamos consumir apenas alimentos industrializados e inanimados, os quais desconhecemos a origem, os ingredientes, no entanto, sabemos que para terem sabor são acrescidas substâncias químicas, pouco saudáveis e desvitalizadas. Com o fazer o pão, lembramos que o alimento feito pelas nossas mãos são mais saborosos, dão-nos prazer e orgulho, além alimentar nossa alma.

 

Receitas de pão integral

Receita I

Ingredientes

150g de farinha de trigo

50g de farinha de centeio integral

Um quarto de tablete de fermento

Uma colher (chá) de açúcar

Uma pitada de sal

Uma colher (chá) de manteiga

Água morna

Modo de fazer

Colocar o fermento e o açúcar para crescer em um copo;

Juntar as farinhas com o fermento (já crescido);

Derreter a manteiga com um pouco de água morna e juntar a massa;

Acrescentar os outros ingredientes (sal, água);

Amassar bem a massa até que ela desgrude da mão;

Assar por aproximadamente uma hora;

 

Receita II

Ingredientes

Um kg de farinha de trigo branca

Um kg de farinha de trigo integral

Duas colheres (sopa) de açúcar

Uma colher (sopa) de açúcar mascavo

700 ml (aproximadamente) de água morna

Três colheres (sopa) de óleo

Um pacote de fermento biológico instantâneo

Uma colher (sopa) rasa de sal

Duas colheres (sopa): semente girassol e/ou gergelim e/ou linhaça

Modo de fazer

Misturar o fermento, o açúcar, a farinha branca e um poço de água e reservar até que fique uma massa esponjosa (ponto pastoso), e apareçam bolhas de ar. Acrescentar os outros ingredientes misturando e amassando bem. Separe um bolinha da mesma massa e coloque em um copo d’água. Deixe crescer até que a bolinha suba no copo d’água. Divida a massa em tamanhos dos pães e formas de sua preferência. Ao colocá-los na forma pressione levemente para tirar o ar. Asse por aproximadamente 45m

 

As mãos na modelagem

Logo que pegamos a argila, através das mãos sentimos sua temperatura geralmente mais fria que nosso organismo. Intuitivamente as mãos deslizam na massa começando a manipulá-la, amassá-la, pressioná-la e o estranhamento da temperatura vai amenizando-se.

Ainda no início, na fase de adaptação, há o reconhecimento deste novo material, que as mãos novamente permitem que aconteça. Qual a sua textura? Grossa, fina, lisa, macia, porosa? Causa-me simpatia ou antipatia? Parecido com o que acontece conosco num primeiro encontro com outra pessoa. Surgem as perguntas: quem é? Como é?

A sensação ao trabalhar com a argila é muito difícil de descrever, mas há uma ligação intensa, um envolvimento entre o que está se formando e o escultor. Surge, muitas vezes, a impressão que a modelagem é uma extensão tridimensional do artesão.

As mãos são responsáveis por um movimento harmônico onde são expressas através do tato as qualidades de sutileza, delicadeza, sensibilidade. A modelagem, a arte, o objeto vão sendo formados num diálogo entre o côncavo e o convexo, a fluidez, a harmonia entre as superfícies e as atmosferas que vão surgindo. Há também um equilíbrio entre o pressionar, o empurrar, o acrescentar, o tirar, o realizar de várias atitudes indicadas pela alma e definidas pelas mãos. Ë um constante exercitar as habilidades sensitivas, intuitivas, as imaginativas, e perceber as sensações sinestésicas.

Além das pontas dos dedos, do gesto pinça que a mão humana é capaz de fazer, ela pode contar com alguns instrumentos de apoio que com firmeza utilizam-se para fazer pequenos e minuciosos detalhes. São com as mãos que o escultor dá o devido acabamento para uma forma, figura, objeto, uma arte criada por meio de um processo artístico envolvente, criativo e surpreendente.

  

As mãos na joalheria

Tudo começa com uma idéia representada por uma imagem de uma peça. Será um objetivo onde se quer chegar e as mãos serão responsáveis por materializá-lo e guiar o artista num longo caminho a seguir, sejam bem vindos nesta caminhada.

Trata-se a todo o instante, de um intenso trabalho com as mãos. As mãos traduzem a imagem com delicadeza e precisão em um desenho pelo qual o autor da peça irá se apoiar para viabilizá-la durante todo o processo de execução. Em uma próxima fase, as mãos pegam e pesam os metais para construir a liga. Com segurança pegam as ferramentas que fazem a fundição para direcioná-las com o foco e intensidade precisas. A cada etapa as mãos manipulam os metais, as ferramentas e o que está sendo construído. Elas traduzem presteza, e precisão fabulosas na montagem da peça; uma segurança e firmeza no manuseio das ferramentas, da serra, do maçarico, limas, chicote para lixar, na politriz.

Na joalheria, as mãos representam as atividades e competências da alquimia, da química, da física, da engenharia, do design, lembramos do ferreiro, do ourives, da arte de lapidar a pedra e até da administração, de habilidades ligadas a marketing e vendas, quando pensamos em precificar, em expor e vender a jóia ao público apreciador da joalheria artística. 

As mãos ainda revelam o direcionamento que se quer dar no processo e são o veículo pelo qual a personalidade do artesão é desvendada, reconhecida ou até mesmo desenvolvida. O poder de decisão do autor da peça no que se deve ser feito em determinado momento do processo; a destreza na montagem da peça; a sintonia fina deste artesão em vários momentos desafiadores, inclusive no acabamento. Elas traduzem a flexibilidade e até mesmo a criatividade quando surge um problema na confecção e que tem que ser superado, caso contrário o objetivo inicial não será atingido. Perseverança, persistência são também características desenvolvidas neste processo artístico e viabilizadas pelas mãos.

O que se evidência são as mãos que transformam o material bruto na sutileza de um delicado ou arrojado anel. São as mãos que transformam a diversidade da natureza brasileira em uma peça rica em beleza e impressionante por sua estética. São as mãos que reforçam o poder e capacidade do ser humano fazer arte e criar com as mãos.

  

No brilho de sua jóia                                  
vejo a expressão de sua alma.
Da idéia até a forma
vejo seus olhos, mãos e coração
·... com  calma...
bater a forja

lapidar as bordas...